A
CRIANÇA E O DIAGNÓSTICO
Cuidar de uma
criança soropositivo não é tarefa nada fácil. As tarefas e preocupações comuns
aos cuidados de qualquer criança (alimentação, higiene, lazer, escola, etc...)
acrescentam-se outras específicas que têm a ver com sua condição especial (exame,
consultas, medicações). Desempenhar bem estas tarefas não pode deixar de lado
o reconhecimento que esta criança necessita de cuidados com seu desenvolvimento
como pessoa que desejamos autônoma, independente, íntegra e feliz (sempre que
possível....), assim como qualquer criança. As possibilidades que temos de
ajudá-la neste terreno depende em grande medida de como pensamos a infância. Podemos
avaliar que ser criança implica em não se ter condições de "entender" o mundo
e o que acontece quando se está doente, que haverá sempre um adulto que decida
por ela, pois ele sabe o que é melhor. Podemos, por outro lado, pensar que
a criança mesmo sendo um sujeito em desenvolvimento, merece ser levada em conta,
respeitada e ouvida, sobretudo nos assuntos que se relacionam a ela. São estas
atitudes que ajudam a tornar-se um adulto capaz de escolher o que é melhor para
si, entre eles encontra-se a revelação do diagnóstico, da sua condição de soropositividade.
A criança deve ter acesso às informações que lhe dizem respeito, no momento que
as solicitar e na extensão de seu desejo. A manutenção de uma comunicação direta
e verdadeira entre crianças, família, cuidadores e professores, fortalece a todos
e promove a mobilização de recursos pessoais e sociais que, freqüentemente, não
se imaginavam possíveis. Os adultos acreditam que "proteger" as crianças de
notícias desagradáveis é um ato de amor, entretanto, as boas intenções não se
mostram suficientes para sustentar relações de confiança efetivas e tão necessárias
a nossa tarefa, também não modificam a realidade não desejada (estar doente). Saber
quando contar e o que contar a criança não é simples e indolor, contudo, encontramos
as respostas no exercício cotidiano da convivência e proximidade. Atentos às necessidades
e pedidos de nossas crianças e no compartilhar de nossos receios, sentimentos
e idéias com aqueles que vivem situações semelhantes e se dispõem a nos ouvir.
Regina
Abbud Enfermeira do centro de educação infantil
anima
A
Aids - O apartheid explícito e velado
A FOLHA publicou dia 15 / 05 uma matéria sobre a decisão
de uma juíza de Santos que separou irmãos, porque entendeu que o
melhor para crianças soropositivas e soronegativas seria viver em instituições
separadas. A notícia gerou reações imediatas e causou grande
polêmica. Além de contrariar o Estatuto da Criança e do Adolescente
ainda representa um retrocesso na ótica de todos nós que lutamos
pela inclusão social das pessoas vivendo com hiv/aids. Na reportagem
aparecia um comentário da promotora dizendo que a instituição
não teria condições de cuidar das crianças no inverno.
Cabe perguntar: que crianças precisam ser cuidadas no inverno? Soropositivas
ou soronegativas? Quem não tem AIDS também passa frio. A juíza
questiona a instituição ou convívio entre aqueles que tem
aids e os que não tem? Se o problema é roupa de frio, parece –
me que o mais adequado seria discutimos como resolvê-lo. Se a instituição
tem outros problemas, também podemos indagar qual o dialogo que o judiciário
estabeleceu com a mesma no sentido de sinalizar as condições mínimas
de funcionamento? Mas, o importante deste episódio é que ele
abre uma oportunidade para o debate. Esta decisão judicial é um
sintoma da doença social que atinge as crianças e adolescentes vivendo
com HIV/AIDS. Sim, porque eles não enfrentam somente a epidemia da AIDS,
confrontam – se com apartheid explícito ou velado que cotidianamente
os rodeia. Acredito que a juíza possa ter boas intenções
com as crianças. Vários adultos que na melhor das intenções,
no sentido de proteger as crianças e adolescentes vivendo com hiv/aids
acabam por discriminá–los. Estes equívocos partem de diferentes
atores sociais: das instituições de apoio do interior que em função
do preconceito que as crianças sofrem, resolvem abrir “escolas para
soropositivos”; da professora que a priori já concebe que “crianças
com Aids sempre tem problemas de aprendizagem”; do profissional de saúde
que imagina “coitada não vai poder ter filho”; da família/cuidados
que briga e rejeita crianças que apresentam problemas de adesão
a medicamentos, dos pais que não querem seus filhos brinquem sejam amigos
namorem, se aproximem de crianças e adolescentes com Aids. Se, de fato,
os adultos se preocupam e amam tanto as crianças com Aids, se, de fato,
a sociedade se preocupa com a infância e a adolescência, já
estamos um tanto quanto atrasados no sentido de desenvolver a competência
técnica, política e afetiva para oferecer as condições
necessárias ao desenvolvimento destes meninos e meninas, as condições
para que sejam pessoas felizes, cidadãos respeitados. Sei que existem
trabalhos interessantes, iniciativas importantes, mas no geral, o que oferecemos
à estas crianças e adolescentes ainda é mercado pelo nosso
equívoco, pelas nossas representações preconceituosas do
que é infância, adolescência, Aids. Pelo nosso medo de não
saber, das angústias que esta realidade provoca rompendo nossas certezas,
quem sabe pelo medo da morte, real ou fantasiosa.... Garotos e garotas vivendo
com Hiv/Aids (e até os filhos dos portadores do hiv ) aprendem, desde cedo
que vivem muna sociedade que transforma pessoas com aids em AIDS. O sujeito fica
reduzido e é visto, analisado e compreendido a partir de, e em uma função
da AIDS. As crianças quando se desenvolvem buscam um espelho, um outro
para se olhar e descobrir quem são. Os olhos dos outros ajudam na constituição
do nosso eu. O que vemos quando vemos uma criança com Aids? Um dia
brincando com uma criança soropositivo de doze anos indaguei qual a mensagem
que a TV deveria passar para uma criança com aids e ela me respondeu: deve
dizer para ela morrer no ano que vem... Como estamos contribuindo para que
estas crianças construam projetos de vida? Que espelhos estão
sendo para estas crianças? Quanto tempo de energia elas vão ter
que gastar em suas vidas até descobrir que o problema não esta nelas
e sim no equivocado, enferrujado e distorcido espelho dos adultos?
Elizabete Franco Cruz – 37, psicóloga, doutoranda pela FE/UNICAMP,
coordenadora do GT de Criança e Adolescente do GIV – Grupo de Incentivo
a Vida.
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